segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Poeta

Longas distâncias percorridas
encheram-me as bagagens
de sentimentos
e, de cada uma das viagens,
trouxe comigo lembranças
que me enfeitam o coração.

Trouxe igualmente os percalços
dos caminhos desbravados
a custa de sofrimentos...
Tanta lágrima vertida!
Sentimentos devastados
O aprendizado da Vida...

Hoje com as malas desfeitas
Desembalando "souvenirs"
Percebo quantos perdi...
Quebraram-se uns no caminho,
Ou perderam o brilho e a cor,
Ou foram-me arrancados.

Se estão irrecuperáveis,
Recrio-os nas poesias,
Refaço-os em minha alma
E, assim, cumpro a minha meta:
Crio sonhos, fantasio.
Por isso nasci poeta!



domingo, 3 de outubro de 2010

Conversão

Quando entraste em minha vida
Foi como se um vendaval
Abrisse de par em par
Uma janela cerrada.
Era noite em minha alma
E me achei desnuda
O corpo evolvido em lodo.
Vi-me assustadoramente
como jamais me vira antes
Sem caráter
Sem medida
E gravemente ferida. 
Quis cobrir-me,
Ocultar-me,
Mas no lugar de vestes
Só haviam trapos de imundície.
E Tu, vendo minha aflição,
Me disseste brandamente
Que me lavarias com Teu Sangue puro
E em mim colocarias
Vestes alvas feito a neve.
E, desde aquele dia,
Fiz morada em Teus braços
E Te amei, profundamente...
Por isso a cada dia que amanhece
Eu Te agradeço
E ao anoitecer
Eu Te louvo
Porque em toda a minha vida
Jamais provei Amor assim...



Mistérios



Caminhos jamais pisados
Faces que eu nunca vi
Rotas que nunca tracei
Dores que nunca senti.


Por que sinto, olho e percebo
O pó grudando em meu peito
As pedras sob meus pés
As faces e seus trejeitos?


E a dor, assim, lancinante
Que não é minha, mas é
Parece até o lamento
Dos que perderam a fé...


É minha alma a responsável
Girando num torvelinho
Está em mim e está fora
Não se aquieta... não tem ninho...


E por ser assim, rebelde,
Quase um ser de mim distinto
Faz-me escrever o que oculto
Faz-me sentir o que minto...

Sensibilidade



O meu silêncio suporta
todas as palavras contidas
que não ousei dizer.
A garganta seca
traduz o esforço inominável
de nada permitir passar, 
nem um eco,
nem um murmúrio,
do turbilhão que me vai na alma.
Tanto a dizer...
Sufoco a dor,
calo o amor,
mas sou traída pelo olhar
que espelha o vendaval
e o revela
aos que, sensíveis,
têm o dom de captar
meu verdadeiro eu,
minha alma nua...


Desvairios



Sou um ser para além
das armadilhas que me plantaram
Escapei com vida de todas elas
e sento-me a reviver o que findou.
A vida, besta desgovernada, leva ao nada
e deixei de ser o que não fui
apenas porque não o quis ser.

A crueldade da vida...
O frio da saudade de ser
A angústia de não querer ter
Mais do que isso é só viver
sem rumo, sem horizonte.
Perpendicularmente ridícula
é a vida que não tenho.
Destino?
Vou me arranjando em não ser...



Saudade



Saudade do perdido
momentos
chances
pessoas
amores retirados
brutalmente
mansamente...
Um coração salgado em lágrimas
mantido como prova
de emoções vividas
de encontros
de desencontros.
Caminho só
mas, ao lado do caminho,
crescem flores
de variadas cores
que, no meu desvairio,
chamo de Esperanças...

Paz

Tanto desejei a paz
no conforto dos teus braços
no som límpido do teu riso largo
no calor do teu corpo
no som dos teus lábios quentes
nas tuas juras de amor...
Mas tudo ficou no passado
e, por estas coisas do destino,
vivo a vida em solidão
sem a tua presença desejada
sem nada...